top of page

Por que checar antecedentes não basta para evitar violência contra a mulher? Aprenda a produzir conhecimento (Parte 2).

bragaluis855
22 de jul.
4 min de leitura

Atualizado: 22 de jul.

Complementando a postagem de ontem, considerando que a cifra oculta (crimes não notificados) de violência doméstica e contra a mulher é muito grande no Brasil, não dá para confiar na simples checagem de antecedentes criminais, pois as vezes a pessoa está se relacionando com um homem que agrediu todas as parceiras anteriores mas nunca foi denunciado. Por conta disso, a investigação precisa ir mais a fundo em todos os aspectos da vida da pessoa, inclusive se valendo dos sinais sutis de risco. Confira a postagem anterior: Por que checar antecedentes não basta para evitar violência contra a mulher? Aprenda a produzir conhecimento.


Em todo caso, preciso fazer um adendo em relação ao ultimo post: definir "faixa de tempo" é diferente de "prazo" quando o assunto é produção de conhecimento de Inteligência. A faixa tem ligação com "horizonte temporal", ou seja, está mais relacionada com apreciações e estimativas. Não ouso escrever sobre isso na internet devido a complexidade. De qualquer forma, na primeira parte foquei no planejamento para a produção de informes e informações (passado/presente), por isso pulei essa etapa. Hoje por outro lado, pretendo complementar a instrução com orientações acerca dos procedimento de análise, integração e interpretação dos elementos essenciais obtidos na fase de reunião.


Dessa forma, após realizar a avaliação dos dados como demonstrado aqui: "Checar a fonte basta? Entenda como os profissionais de Inteligência classificam dados.", você precisará dividi-los em três grupos, sendo eles: os que expressam certeza, como por exemplo, certidões de antecedentes criminais, processos e relatos confirmados pela própria pessoa, bem como aqueles que expressam opinião, reservados a elementos cujo o analista não possua evidências suficientes para atestá-los como verdade, embora possa classificá-los como provavelmente verdadeiros. Em contrapartida, quando há um equilíbrio entre evidências que corroborem tanto para a aceitação quanto para o descarte de um dado, ele deverá ser colocado no quadrante dúvida.


Essa fase pode parecer trabalhosa e pouco produtiva, porém ela faz toda diferença na hora de atribuir um grau de importância para os dados obtidos durante seu trabalho, além de possibilitar o descarte daqueles que não contribuem para atender os aspectos anteriormente listados como essenciais. Sobre isso, imagine considerar como verdade absoluta, fofocas de bairro e boatos com pouca ou nenhuma confirmação... O mesmo vale para relatos de agressão e crimes que não geraram denuncias formais ou condenações e tampouco foram confirmados por fontes confiáveis. Após esse processo, você deverá listar todos os elementos essenciais ainda dispersos e organizá-los em uma sequência lógica que permita responder a todas as suas indagações em relação ao assunto.


No entanto, na fase de interpretação, você deverá estabelecer as ligações existentes entre os dados a fim de definir relações de causa e efeito, além do grau de motricidade entre eles visando encontrar padrões e apontar tendências, sobretudo comportamentais, fator alvo do seu trabalho. Assim, o analista deverá identificar entre os elementos já conhecidos e fatos reunidos durante o processo, fatores de influência do passado e do presente que possam representar risco. Exemplificando: sabe-se que casos envolvendo violência durante a infância do homem podem contribuir para a formação de um marido/parceiro agressor, especialmente se ele presenciou o pai atacando a mãe, exigindo atenção caso isso tenha sido identificado. Lembrando que esses indícios deverão se basear na consulta a especialistas ou leitura de artigos acadêmicos a respeito do tema como foi explicado no post anterior.


Em outras palavras, você deverá considerar os fatores de influência do passado com potencial para afetar as atitudes da pessoa no momento atual ou no futuro, bem como os indicativos do presente que você já identificou e que são considerados por experts, como possíveis sinais de alerta, como: possessividade, ciúmes e necessidade de controle. É claro que você deverá atribuir um "peso" para cada fator, considerando inclusive os estados mentais perante a verdade (certeza, opinião e dúvida), pois obviamente sinais baseados em indicativos psicológicos e relatos sem registro formal, serão menos perigosos do que históricos confirmados de violência contra parceiras anteriores, diagnósticos de doenças mentais, dependência química, processos, mandados de prisão ou passagens pela lei maria da penha. Assim, com base nesse conhecimento, ficará mais fácil atribuir um grau de risco à pessoa em questão e a mulher terá ao menos 3 linhas de ação a depender do perigo, sendo elas: entregar-se a relação (risco baixo); entrar no relacionamento tomando as devidas precauções (risco médio) ou evitar (alto risco).


Para finalizar o assunto, há um consenso de que a violência contra a mulher no Brasil seja muito mais causada por fatores estruturais do que individuais propriamente ditos, demandando esforços de conscientização por parte do Estado e políticas públicas para evitar que elas continuem sendo tratadas como objeto de posse por homens comprometidos com uma sociedade predominantemente machista. Contudo, o ambiente costuma afetar as pessoas de formas diferentes a depender de fatores intrínsecos dos indivíduos, sendo esse o ponto chave destas postagens que servem para instruir mulheres comuns na produção de conhecimento de Inteligência a respeito de seus futuros parceiros. Como ultima dica, aconselho a não se limitar a classificação do risco, mas ir além na reunião de informações que subsidiem a criação de planos de segurança e emergência para os casos de agressão, ameaça ou qualquer tipo de violência contra a mulher, debruçando-se na lei maria da penha e consultando operadores do direito😉


🚨Leia também🚨



 
 
 

Comentários


bottom of page