Por que checar antecedentes não basta para evitar violência contra a mulher? Aprenda a produzir conhecimento (Parte 1)
Atualizado: 23 de jul.
Acho que os índices de violência contra a mulher e feminicídio no Brasil cairiam bastante se as mulheres tivessem acesso a mais informações sobre os caras que se envolvem. Muitos agressores são reincidentes, possuem passagem pela lei maria da penha ou têm histórico violento. Por isso, conscientização acerca dos sinais de risco, como comportamento controlador e ciúmes exagerado, também ajudariam. Enfim, bem que o governo poderia consultar especialistas em dados e ciências comportamentais visando desenvolver uma cartilha de prevenção exatamente nesse sentido para elas, né?
Mas enquanto isso não acontece, acho engraçado como muitas se gabam por serem ótimas "stalkers" (encontram o Instagram dos crushs como ninguém)... Em contrapartida, continuam entrando em relacionamentos tóxicos por não saberem identificar indicativos sutis de perigo, grande parte por estarem inseridas em uma cultura de inversão de valores que ofusca os riscos. Contudo, apesar de hoje ser muito simples consultar antecedentes criminais, mandados de prisão e processos em nome de alguém, as próprias mídias sociais possibilitam coleta de dados complementares a respeito da situação financeira, circulo social e familiar de uma pessoa, elementos que são essenciais para estimar grau de risco, independente dos antecedentes.
Sobre isso, recomendo começar sempre pelo grau de instrução, trabalho e principalmente classe e circulo social, considerando que esses aspectos podem modificar consideravelmente o significado e o impacto dos demais indícios. Dessa forma, Imagine alguém que, embora não possua passagem pela justiça, já agrediu ex companheiras ou tenha ligações com bandidos? (Acesse esta outra postagem e entenda: O que as amizades revelam sobre nós? ) A título de ilustração, excesso de tatuagens no corpo de um homem pobre, pode ser sinal de comportamento antissocial (criminoso/vadio), considerando que isso atrapalha a colocação no mercado de trabalho e nos leva a deduzir que ele não está preocupado com isso... a menos que atue com estética, comunicação, internet, arte ou outras áreas cuja criatividade seja uma qualidade e pré-requisito.
Assim, você também deverá se perguntar como ele arrumou dinheiro para se tatuar, visto que não é tão barato, a depender do tamanho, cores e refino. Aliás, esse aspecto também pode apontar em direção à infância e criação caso as tatuagens tenham sido feitas muito cedo (falta de controle pelos pais ou vinculo familiar fraco). Por outro lado, isso não faria tanta diferença no corpo de alguém que seja servidor público, tenha estabilidade financeira ou venha de classe social mais alta, no mínimo poderia indicar comportamento rebelde ou inconformado. Em todo caso, como pudemos ver, planejar a produção desse conhecimento é tão ou mais importante do que simplesmente sair pesquisando ferramentas de OSINT (Inteligência de fontes abertas) e sites para emissão de certidões e nada-consta criminais nos muitos chatbots de IA generativa por aí. (Leia mais sobre isso: O que é Inteligência de Fontes Abertas?)
Dessa forma, você deverá começar estabelecendo muito bem o assunto, bem como a finalidade e o prazo do seu trabalho. Depois disso, deverá apontar os aspectos essenciais já conhecidos sobre o tema e a partir daí, listar tudo que precisará ser descoberto a fim de possibilitar a decisão mais acertada. Entretanto, notou como eu utilizei o termo "assunto" e não "pessoa"? Isso ocorre pois é um erro muito grave focar apenas no indivíduo quando o conhecimento demanda dados adicionais que você não possui. Exemplo: como buscar sinais de risco para violência contra mulher em um homem se você não sabe quais são? Nessas circunstâncias, seria necessário também buscar orientações com especialistas, como psicólogos, psiquiatras e sociólogos antes de focar na coleta em torno do pretendente para que nada passe despercebido na sua busca.
Felizmente, na internet temos uma vasta gama de profissionais criando conteúdo sobre esse tema, bastando o analista atentar-se para as qualificações deles através de consultas em conselhos de fiscalização profissional, como CRM (Conselho Regional de Medicina), CRP (Conselho Regional de Psicologia) e OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Outra dica muito importante é não se contentar com apenas um parecer, ao invés disso, consulte vários a fim de chegar ao um consenso. A propósito, o Google acadêmico reserva muitos artigos sobre esse tema e é uma ótima fonte para quem é familiarizado com esse tipo de publicação e não tem preguiça de ler. Caso seja necessário, defina medidas extraordinárias, como: entrevistas com amigos e parentes próximos ou contratação de investigadores privados para refinar o trabalho na rua, seja seguindo ou vigiando a rotina da pessoa por um tempo.
Sendo assim, em síntese, defina o assunto e a finalidade, ex: Assunto: "levantar aspectos acerca dos indicativos de perigo para violência contra mulher em Fulano De Tal"; Finalidade: "tomada de decisão para relacionamento (namoro/noivado/casamento)"; Prazo para o término do trabalho: auto explicativo; Aspectos essenciais conhecidos: tudo que você já conhece sobre o tema estudado e a pessoa; Aspectos essenciais a conhecer: indicar as questões que serão respondidas por intermédio de dados públicos (coleta) bem como aquelas que exigirão atividades especializadas ou em campo através de métodos que poderão demandar contratação de assessorias ou consultorias externas (busca), como conversas com advogados, psicólogos, psiquiatras e até investigações particulares. Na doutrina, esse ultimo tópico se chama "medida extraordinária", consistindo na busca por recursos externos que a agência de Inteligência (ou você) não possua.
Por fim, embora detalhes relativos à reunião e processamento de dados fuja do objetivo desta postagem, você deverá também cuidar da qualidade das informações; fiz uma postagem sobre esse assunto no passado, leia aqui: Checar a fonte basta? Entenda como os profissionais de Inteligência classificam dados. Deverá também especificar orçamento, bem como as medidas de segurança para que nada vaze durante a produção. (Leia também: Os mitos sobre segurança da informação que prejudicam o básico que funciona.) Entretanto, lembre-se que a Segat Consultoria conduz investigações e produz relatórios de Inteligência digital, inclusive apreciações e estimativas orientadas a decisões de longo prazo. Em breve complementarei esta postagem orientando acerca dos procedimentos de análise, integração e interpretação de dados 😉
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