Julgar pela aparência está baseado em ciência?
Julgar as pessoas pela aparência pode parecer preconceituoso mas tem raízes em fundamentos científicos já superados, como o positivismo, que defendia critérios rígidos e universais para as ciências humanas, observáveis e baseados em fatos assim como acontecia nas naturais. Ocorre que isso não levava em consideração a impossibilidade de separação entre pesquisador e objeto de estudo, comum nas ciências sociais, considerando os muitos vieses que poderiam influenciar o analista, dando origem a uma corrente criminológica baseada na visão discriminatória do médico psiquiatra italiano, Cesare Lombroso.
Isso incluiu os conceitos de bioantropologia ou antropometria aos estudos criminológicos, bastante marcados na época pelo julgamento estatístico das proporções e medidas do organismo. Em outras palavras, aqueles que fugiam do padrão, eram considerados criminosos potenciais. Contudo, apesar dessa concepção já ter sido ultrapassada por teorias modernas voltadas sobretudo para as consequências de uma má socialização, novos estudos de criminologia clinica aprofundaram esse tema em pontos de vista mais plausíveis, como o endocrinológico, o psicopatológico e o genético.
Em todo caso, embora seja um consenso moderno de que o crime se trata de uma questão biopsicossocial (biológica, psicológica e social), curiosamente se considerava 4 tipos básicos de composição corporal com base nessa abordagem, sendo elas: os displásicos, ou pessoas de constituição corporal desproporcional associadas a crimes sexuais; os leptossômicos, indivíduos de estatura alta, de mãos e pés curtos, cabelo crespo, tórax largo e cabeça pequena, relacionados com delitos como estelionato e furto, bem como os atléticos, de estrutura óssea e muscular forte, além dos pícnicos de composição corporal frágil, respectivamente ligados a crimes violentos (atléticos) ou de menor propensão (pícnicos). Havendo ainda muitas outras teses lombrosianas tão bizarras quanto.
Contudo, ao contrário do passado onde a tendência criminal poderia ser imputada, por exemplo, pela espessura da sobrancelha, tamanho das mãos ou largura dos ombros, hoje estuda-se por exemplo no prisma biológico, os efeitos do hipertireoidismo na delinquência violenta, bem como da transmissão de fatores hereditários na gênese dos delitos. Isso ocorre pois leva-se em consideração, estudos médicos a respeito das variáveis congênitas para o crime, especialmente psiquiátricas, distanciando-se de julgamentos preconceituosos antiquados que não levavam em conta fatores como criação e convivência em sociedade, ou seja, o contexto da pessoa.
Ademais, a leitura a frio também é utilizada por investigadores para identificar sinais corporais que possam revelar estados emocionais e características de um indivíduo, valendo-se de conhecimentos em comportamento humano e estatística para atestar que uma expressão facial, gesto ou forma de se vestir realmente esteja associada a determinado grupo de pessoas ou emoções. Aliás, é por meio disso que charlatões religiosos parecem adivinhar que alguém está doente ou tem problemas financeiros ou conjugais… eles fazem isso observando por exemplo, sobrepeso que está vinculado a enfermidades como diabetes e hipertensão, bem como cortes de cabelo, adornos e marcas de roupas que podem dar sinais de poder aquisitivo ou promiscuidade.
Em suma, se levarmos em consideração, por exemplo, estudos bioantropológicos relacionados com fatores hereditários ou hormonais que possam provocar mudanças físicas passivas de observação em homens e mulheres, sim, julgar pela aparência pode ter fundamento científico... Mas a coisa muda de figura quando entra em cena a leitura a frio, que é mais uma questão de treinamento, experiência e convivência com as pessoas do que o consumo de centenas de artigos e obras sobre o assunto, não se tratando então, de ciência. Em todo caso, todos esses métodos exigem análise do ambiente e contexto geral do indivíduo para fins de produção de conhecimento.




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